UM PRESENTE DE NATAL
(Vaine Darde)
"Por que será que a gente comemora
com fogos, luzes, festas e ornamentos
a data do singelo nascimento
do Deus menino numa manjedoura?
Não foi essa lição reveladora
que Ele nos deixou nos testamentos,
de tanta ostentação num só momento
enquanto, na miséria, a vida implora...
Quem sabe fosse mais original,
em vez de tanta festa no natal,
deixar brilhar, em nós, a Santa Luz...
E dividir o pão co’a fome nua,
Ou, mesmo, recolher um cão de rua
na forma dum presente pra Jesus."
LÁPIDE FILIAL
"Apoiada na sêca frincha
do teu nicho venho dizer-te:
caros peitos que me nutriram
com um leite mais do que outro, vivo;
quietos olhos que me fitavam
com olhares que me cingiam;
amplo colo que me aqueceu
com uma chama que não se esfria
pequena mão que me tocava
com um contato que me fundia:
ressuscitai, ressuscitai,
se existe a hora e é certo o dia,
para que Cristo vos reconheça
e a outro país deis alegria,
para que pague meu Arcanjo
o sangue, o leite e as formas minhas,
e que por fim vos recupere
a vasta e santa sinfonia
de velhas mães: a Macabéia,
Ana, Isabel, Raquel e Lia.
(Gabriela Mistral)
"Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de outrora
A morna rosa escura e apetecida.
E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora
Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza."
(Vinicius de Moraes, Antologia Poética, Cia. das Letras, SP, 1996, p.153,154)