Poemas da Caminhada - Lúcia Constantino
O canto da alma é a única coisa que fica. E o que dele fizermos...
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29/07/2007 19h25
Maravilhoso soneto de Natal (de Vaine Darde)

UM PRESENTE DE NATAL

(Vaine Darde)


"Por que será que a gente comemora
com fogos, luzes, festas e ornamentos
a data do singelo nascimento
do Deus menino numa manjedoura?

Não foi essa lição reveladora
que Ele nos deixou nos testamentos,
de tanta ostentação num só momento
enquanto, na miséria, a vida implora...

Quem sabe fosse mais original,
em vez de tanta festa no natal,
deixar brilhar, em nós, a Santa Luz...

E dividir o pão co’a fome nua,
Ou, mesmo, recolher um cão de rua
na forma dum presente pra Jesus."




 

Publicado por Lúcia Constantino
em 29/07/2007 às 19h25
 
29/07/2007 19h05
de Florbela, VI (sem título mesmo)
"Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros de apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
De onde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!"

(Florbela Spanca, Sonetos, Ed. Difel,SP, 1983, p.168)
Publicado por Lúcia Constantino
em 29/07/2007 às 19h05
 
29/07/2007 18h56
Poema vivo (Gabriela Mistral)

LÁPIDE FILIAL

"Apoiada na sêca frincha
do teu nicho venho dizer-te:
caros peitos que me nutriram
com um leite mais do que outro, vivo;
quietos olhos que me fitavam
com olhares que me cingiam;
amplo colo que me aqueceu
com uma chama que não se esfria
pequena mão que me tocava
com um contato que me fundia:
ressuscitai, ressuscitai,
se existe a hora e é certo o dia,
para que Cristo vos reconheça
e a outro país deis alegria,
para que pague meu Arcanjo
o sangue, o leite e as formas minhas,
e que por fim vos recupere
a vasta e santa sinfonia
de velhas mães: a Macabéia,
Ana, Isabel, Raquel e Lia.

(Gabriela Mistral)

Publicado por Lúcia Constantino
em 29/07/2007 às 18h56
 
29/07/2007 18h50
Soneto da Rosa (Vinicius de Moraes)

"Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de outrora
A morna rosa escura e apetecida.

E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude

Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza."


(Vinicius de Moraes, Antologia Poética, Cia. das Letras, SP, 1996, p.153,154)

Publicado por Lúcia Constantino
em 29/07/2007 às 18h50
 
29/07/2007 18h45
Poema de Rilke, que adoro
"A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.
Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos...
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto."


(Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas, tradução J. P. Paes)
Publicado por Lúcia Constantino
em 29/07/2007 às 18h45
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