Amanhecer com minha mãe no coração
[para d. Hilda Reinhardt Siqueira, in memorian]
Ante esse sol nascente que habita esta paisagem e o meu coração,venho dizer-te de todas as noites sem estrelas
pelas quais passou minha alma desde o nascer daquele distante 6 de dezembro.
E eternamente tão próximo com suas vestes de saudade, de dor e silencios a cada novo ano.

Mas hoje, hoje é o seu aniversário.
Vem revestido de saudade,de gratidão pela vida que me deste,
vem revestido de gratidao a Deus pelos teus olhos abertos para a existencia naquele 17 de junho longínquo, na pequena Ascurra, em Santa Catarina, na garotinha a enfrentar pela infancia e adolescencia afora as agruras da dificil vida rural da época e da austeridade e severidade do pai alemão, nem sempre condescendente com os desejos e sonhos de seus filhos, mas com certeza um batalhador como voce foi. Voce, que enfrentou um oceano para criar seus filhos com dignidade.
Voce era simples, roceira, do campo mesmo, fazia a melhor comida do mundo, sabia costurar, bordar, plantar,colher, fazia contas de cabeça pois nunca pode ir a escola, conhecia todos os onibus só pela visão da placa, nunca pegou um onibus errado na vida. Fazia nossa roupa durante toda nossa infancia e adolescencia e seus próprios vestidos e cortava tudo direto no tecido, fazendo seus calculos na cabeça, parava,ficava olhando, medindo mentalmente e depois passava a tesoura e saia tudo perfeito. E voce mal sabia assinar seu nome.
Ah, minha mãe, se eu fosse falar tudo que sinto no peito sobre voce, eu discorreria aqui até a eternidade. Lembro de todas as músicas das missas e sua voz cantando ainda me soa na memoria --- 'dai-nos a fé, ó Virgem, o brado abençoai.' --- tantas musicas e também as evangélicas da igreja que voce frequentou algum tempo na nossa infancia 'Foi na cruz, foi na cruz, onde um via eu vi, meus pecados castigados em Jesus. Foi ali, pela fé, que meus olhos abri e agora me alegro em Sua Luz.' ---- e voce amou tanto, tanto, mais do que a si mesma.
Esse amor era como o sol que ora renasce aqui e abrangia todas as coisas, todas as pessoas - voce era a mais digna filha da natureza que eu conheci. Ajudava aqui e ali sempre que podia alguem que julgava merecer seu auxilio e um dia vendeu seus cabelos para comprar comida pra sua familia. Não, eu não saberia nunca na vida dizer o quanto voce foi tudo. Tudo, simplesmente.
Quis o destino que a tua amada filha Luizinha partisse aqui na véspera do teu aniversário, no dia 16 de junho - o que consola a minha dor sempre foi pensar que talvez Deus tenha decidido te presentear com a chegada dela aí em cima onde estás. Coisas da Divindade, que não podemos questionar. Afinal, dela todos viemos.
Feliz Aniversário, minha mae querida, saudade de ti.
[fotos por Lúcia Constantino]