O PÓ DA VIDA
O pó da vida
infiltra-se pelas frestas das janelas,
das panelas,
dos castiçais.
Constrói as rugas de uma velha
que ainda tem altar
- no seu justo direito de sonhar.
Quanto vale o pó que não é ouro,
mas que na saudade envolveu tesouros
que não se valorizam mais...
Pó que não preencheu colher de medida
pra nenhuma receita perdida
no caminho do arco-iris.
A receita não mais existia.
Se perdeu num portal fechado
onde só o vento sorria.
Pó que foi só fundo de copo esquecido
no oratório onde um lirio vivo
sonhou ser eternamente um campo
pra nunca enfrentar o pó dos revolvidos.